Oração
(In)tolerância
Senhor,
perdoa-me, porque sou intolerante!
Mas…tu sabes
como me dói a escravidão de seres humanos
a quem eles roubam
as forças vitais de cidadania
e que, na hora em que o voto lhes convém,
fazem promessas obscenas
de oásis que não cumprem!
Sabes, Senhor,
habita-me uma angústia intolerável
da fome, da miséria, da injustiça
da desigualdade, que tu, tolerantemente,
toleras!
Moem-me a alma intolerante os
vendilhões dos templos e os vendedores
de falsas ilusões,
que apregoam, em vão, o teu nome
e profanam, com tolerância, os mais sagrados
templos humanos…
Meu Deus,
como eu sou intolerante,
quando me morde a racionalidade dos tolerantes
que não toleram as intolerâncias
existenciais dos que sofrem de intolerância!
Até presa dentro de mim,
Meu Deus,
sou intolerante para mim mesma!
Perdoa-me,
Senhor,
a minha incompreensão, a minha intolerância…
mas...
não aceito os que toleram,
porque apenas concedem
e arvoram uma relação de superioridade
sobre os outros, que não sabem tolerar
o que é intolerável!
Senhor,
por que razão não permitiste,
com o teu livre-arbítrio,
a possibilidade de excluir tolerância e intolerância
para que a igualdade humana
se cumprisse, e onde todos tivessem
oportunidades?!
Senhor,
não sei se mereço o teu perdão,
mas, enquanto permitires que o homem
insista na sua arbitrariedade,
continuarei a ser intolerante!
Porque...
O que me move
é a demanda de um mundo mais justo,
onde tu e os tolerantes, intoleravelmente,
não toleram a intolerância
da indignação!
Ana Maria Dias da Cunha


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