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terça-feira, 3 de outubro de 2023

 

Mais curiosidades...

 

No coração de Dublin, existe uma universidade, Trinity College, que tem 431 anos. É a mais antiga da Irlanda e uma das mais famosas do mundo. Foi a Rainha Elisabeth I que esteve por detrás da sua fundação, em 1592.

Durante 368 anos, foi elitista, pois era um lugar exclusivo de protestantes (maioritariamente ingleses). Porém, em 1960, passou a admitir alunos católicos que, na sua maioria, eram e são irlandeses.

Oscar Wild, Edmund Burke e Samuel Becktt, ilustres personalidades, foram jovens que, entre o estudo e deambulações diversas, passaram por aqui.

A Biblioteca desta universidade dá guarida à maior colecção de manuscritos e livros impressos da Irlanda. Desde 1801, recebe um exemplar de todas as obras publicadas na Irlanda e Grã-Bretanha e, por isso, já conta com quase três milhões de livros divididos em oito edifícios. O edifício da Antiga Biblioteca, construído entre 1712 e 1732, é o mais antigo dos que se conservam. A sala principal, conhecida por “Long Room”, tem 65 metros de comprimento e possui mais de 200.000 dos livros mais antigos da biblioteca.

As infinitas estantes que, no dia da minha visita, não estavam repletas de livros, devido à manutenção esporádica de limpeza, libertam um odor muito agradável a madeira antiga, cujo ambiente nos transporta para outras eras, outros cenários.

Dezenas de bustos de mármore vigiam atentamente todo este espaço mítico, misterioso e envolvente. Detive-me no busto de Platão, discípulo de Sócrates, um dos meus filósofos preferidos da antiguidade grega. Veio-me à memória um pensamento (não sei precisar o autor) que li a propósito de uma síntese da “Alegoria da Caverna” e, baixinho, perguntei-lhe: Meritíssimo Platão, por favor, diga-me: É verdade que o mito da caverna é um ser humano que é uma presa social? Uma presa psíquica? Uma presa psicológica? Uma presa moral? Uma presa da natureza humana capitalista? É verdade que só a liberdade social, psíquica, psicológica, moralista e capitalista desamarra o ser humano da caverna e o liberta de seus próprios arquétipos? Ele, num brutal silêncio de morte, respondeu-me, sorrindo - Quanto a ti, está absolutamente descansada, pois não encaixas em nenhum padrão, seja ele de que natureza for! Tu és absolutamente imprevisível, indomável, indisciplinada e deixas a vida acontecer! No entanto, quando os imponderáveis esbarram contigo, nesse momento, o teu semblante é tão, mas tão aflitivo, que pareces "o grito de Munch"! Vigio-te e sei que, lentamente, desapertas os grilhões que, no momento, te prendem e retomas o trilho "da vida a acontecer"!    Quanto aos outros mortais, deixa-os pensar, reflectir, para concluírem se é necessário, ou não, se libertarem dos grilhões que os escravizam. Sorri e despedi-me humildemente, agradecendo o seu sábio conselho.

Percorri mais uns passos, dos 65m de comprimento, do “Long Room” e, mais ou menos a meio da sala, deparei-me com uma vitrine, onde está exposta a mais antiga harpa da Irlanda, feita de carvalho e salgueiro com cordas de bronze. A harpa, como sabem, é reconhecida como um símbolo da Irlanda, desde o Séc. XIII. Reza a lenda e a história que esta que se encontra neste espaço, envolvida pela vitrine, pertenceu a Brian Boru que, em gaélico, significa o dos tributos, pois tributou outros governantes menores da Irlanda para reconstruir os mosteiros e as bibliotecas destruídas pelas invasões Vikings. Tornou-se rei de Munster em 976 e, em 1002, ganhou o título de Grande Rei de toda a Irlanda (em inglês High King of All Ireland e em irlandês Árd Righ Gaidel Éirinn).
Morreu numa Sexta-feira Santa, em 23 de Abril de 1014, durante a batalha de Clontarf, lutando contra os Vikings.
A partir da sua morte, reza a história que a Irlanda, sem o seu heróico líder, caiu no caos e na anarquia dinástica, e nunca mais voltou a ficar unida sob o domínio de um irlandês.

O livro de Kells, a jóia da biblioteca, contém um texto em latim dos quatro evangelhos, escritos com uma caligrafia muito embelezada, feita com pigmentos coloridos. Este precioso livro foi criado pelos monges da abadia de Iona, (ilha escocesa) no início do Séc. IX. Depois do saque de Iona, levado a cabo pelos Vikings, em 806 a.C., os monges que sobreviveram refugiaram-se em Kells, uma povoação do condado de Meath, na República da Irlanda, que fica a 65Km de Dublin, a capital irlandesa.

Nesta visita, escutei, muito atenta, todas as explicações e ia perdendo o meu olhar em tudo o que via,  porém, aqui para nós que ninguém nos ouve, o que me deu mais prazer foi ter aquela conversinha com o sapiente Platão,  e imaginar o Grande Rei de toda a Irlanda, Brian Boru,  a lutar de harpa em riste contra os ferozes Vikings!

 




 Ana Maria Dias da Cunha

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

sábado, 2 de setembro de 2023


“A tolerância é a melhor das religiões”.

(Victor Hugo)

 (Conflito que nem os Muros da Paz resolveram)


Estando em Belfast, era imperioso visitar os “Muros da Paz”, outrora denominados “Muros da Vergonha”. Sim, da vergonha, pois, no Séc XXI, em países ditos civilizados, ainda verificamos grandes muros altos, com arame farpado, a separar seres humanos que não se toleram devido à prática de religiões diferentes.

Estando em Belfast, é impossível ignorar o conflito que ainda opõe católicos e protestantes. Este entra-nos pelo olhar de uma forma confrangedora. Sente-se algo desconfortável,  nesta  capital norte-irlandesa.

A ferida que se sente a qualquer momento pode voltar a sangrar! A sua cicatrização tem sido difícil pois, quer de um lado, quer de outro, se verificam organismos humanos extremamente renitentes aos mecanismos de reparação. 

Este  conflito na Irlanda do Norte,  que é conhecido por “The Troubles”, deve-se, em grande parte, à intensificação da colonização britânica do Século XVII, e que, depois de muita tinta, suor, sangue, lágrimas e fome, ao longo de séculos, fazer correr, a avaliar pela vivacidade das cores e dos temas desenhados nos muros, se verifica que, embora dissimulados, estes problemas existem.   

Custa-me imenso aceitar estes rancores, ainda mais quando se trata de religiões. Pergunto-me muitas vezes se não é suposto a religiosidade/espiritualidade, seja ela de que natureza for, unir as pessoas, torná-las mais dóceis e compreensivas, levando-as a construir pontes e não muros. Porém, por outro lado, fico muito renitente e aberta à compreensão! Pela minha natureza intolerante a injustiças e atitudes arbitrárias, muitas vezes resultantes de interesses pessoais,   se  tivesse sofrido na pele, directa ou indirectamente, os efeitos deste conflito, penso que não estaria com  sobranceria e despudor a julgar estas fraquezas humanas. 

Este pomo da discórdia vem de muito longe, remontando à guerra da Independência, ou guerra Anglo-Irlandesa, cujo conflito armado assimétrico, foi travado entre 1919 a 1921, entre o exército Republicano Irlandês (as forças da autoproclamada Républica da Irlanda) e o exército Britânico. Esta guerra resultou de um desenrolar de eventos após anos de grande tensão. Em Dezembro de 1918, houve eleições gerais na Irlanda, e o partido republicano Sinn Féin ganhou com a maioria dos votos. Em 21 de Janeiro de 2019, foi formado o primeiro governo de ruptura e é declarada a independência da Irlanda do Reino Unido. Todavia, esta interrupção acentuou significativamente os problemas. 

 Assim, durante boa parte de 1919, o IRA (Exército Republicano Irlandês, que lutou pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido) focou as suas actividades em roubar armas e libertar prisioneiros republicanos. Em Setembro, o governo inglês em Londres baniu e declarou ilegal o parlamento separatista (Dáil) e o Sinn Féin, intensificando o conflito. Estas lutas concentraram-se essencialmente na região sul, na área de Munster (particularmente no condado de Cork, tendo sido esta cidade totalmente destruída pelo exército britânico), em Dublin e em Belfast, no norte. Nestes locais, foram registados 75% das fatalidades da Guerra. Foi, porém, em Belfast, que a violência tomou carácter mais sectário e religioso, com católicos e protestantes a degladiarem-se em sangrentos confrontos.

Depois de dois anos de intensos conflitos, com bastante perdas humanas, cidades destruídas, terminando com a prisão de pelo menos 4500 republicanos irlandeses, foi acertado um cessar fogo, em 11 de Junho de 1921, e a Irlanda foi oficialmente dividida em duas, terminando na assinatura do Tratado Anglo-Irlandês, em 6 de Dezembro  de 1921. Contudo, este tratado, ao que se sabe, não foi consensual. 


Na actualidade, persistem duas forças perfeitamente antagónicas. Por um lado os  lealistas, maioritariamente protestantes, que defendem o aperfeiçoamento dos laços políticos com a vizinha ilha da Grã-Bretanha, igualmente protestante, e a consequente conservação da Irlanda do Norte no seio do Reino Unido. Por outro lado, os integracionistas, minoria católica, que defende a integração da República da Irlanda, predominantemente católica, com quem partilha o território da ilha. Estes reivindicam a igualdade religiosa, sobretudo a não discriminação da minoria católica no acesso a cargos públicos e empregos. Com os direitos diminuídos, face à maioria protestante, a minoria católica sente-se marginalizada, alimentando, compreensivelmente, um sentimento indesejável de revolta, pois as discriminações, sejam elas de que natureza for, são desumanas e próprias de sociedades subdesenvolvidas.

Quem não se lembra da escalada da extrema e recente violência, levada a cabo pelo IRA que, recorrendo a métodos terroristas, incluindo atententados bombistas e emboscadas com armas de fogo contra alvos protestantes e representantes do governo britânico, se envolveram em lutas, cuja acção de terror e medo  durou desde os anos 1960 até finais da década de 1990, altura em que foi assinado o Acordo de Belfast (ou Acordo de Sexta Feira Santa), que estabeleceu as bases para um governo de poder partilhado entre católicos e protestantes? Penso que ainda está bem vivo na mente de todos nós, sem dúvida. 

A intenção era boa, todavia,  esse acordo protocolar  que, se esperava, trouxesse  perdão, união e solidariedade, não passou do papel.  Ao que parece, os corações das pessoas, quer de um lado, quer de outro, continuam demasiado feridos e, por isso, dificilmente transmutam o ódio em compaixão, compreensão, amor.

Na verdade, os problemas nunca foram totalmente eliminados. Mantêm-se enraizados profundos sentimentos de ressentimentos com esporádicos episódios de violência que, segundo testemunhos, o fenómeno do Brexit veio acentuar.

Resumindo, com católicos e protestantes a defenderem soluções mutuamente exclusivas (ser parte do Reino Unido ou pertencer à República da Irlanda), torna-se difícil encontrar um denominador comum que permita resolver definitivamente o conflito. 

Confesso, mais uma vez, que me é difícil entender estas desavenças religiosas que obrigam ao surgimento de muros! Sempre acreditei que a religião implica elevação, desprendimento e, acima de tudo, perdão e união! Foi, com um certo constrangimento, tentativa de compreensão, mas também uma ligeira revolta que, no “Muro da PAZ” (outrora Muro da Vergonha), deixei a minha marca, quando escrevi (toda a gente que por lá passa deixa a sua mensagem), “As religiões são a origem do Mal”! Escrevi esta mensagem com toda a convicção e tristeza, porque simplesmente me custa perceber tanta mágoa! 

Se todos os homens amassem mais a Natureza e se respeitassem uns aos outros, não precisaríamos de Religiões para sobreviver, pois encontraríamos espiritualidade  nas pequenas coisas envolventes: nos rios que cantam, nos pássaros que chilreiam, na chuva que rega e faz florir, no sol que brilha e nos seca as lágrimas, nos poentes idílicos que nos trazem a tranquilidade de noites aluaradas e cravejadas de  estrelas!

Chego à conclusão de que os interesses são terríveis, a Ganância devora o ser humano, e a humanidade continua a caminhar a várias velocidades.

Se me perguntarem com qual dos lados eu simpatizei mais, acho que facilmente chegam a uma conclusão! Considerei os habitantes da República da Irlanda muito sóbrios, simples, quer no que diz respeito às paisagens, habitação, e muito prestáveis, afáveis e simpáticos na forma como tratam os visitantes. 

Sei que posso estar a tirar conclusões precipitadas, porém, foi o que senti!

 

Ana Maria Dias da Cunha

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

domingo, 27 de agosto de 2023

 

Mistérios e fascínios do Castelo de Dunluce,

Irlanda do Norte


Mergulhei um pouco mais fundo naquilo que despertou o meu interesse pela ilha esmeralda.

Agora, a esta distância, acredito que tenha sido uma série irlandesa, “Amores que Matam”, cujas paisagens naturais me fascinaram. Não obstante as personagens se moverem num espaço social de classe média/alta, cujas formas de pensar, sentir e agir representavam, portanto, uma pequena franja social, fiquei com curiosidade em tomar contacto, pequeno que fosse, com um povo, outrora colonizado e muito subjugado pelos ingleses.

 

É, claro, que não tive tempo suficiente para tirar ilações, porém, sempre que necessitámos de um esclarecimento, de uma pequena informação, senti muita afabilidade e uma prontidão, espontânea e simpática, em ajudar-nos. Lembro-me, em Galway, considerada uma das cidades mais joviais da Irlanda, numa loja, onde vi uns lenços artesanais encantadores, ser atendida por uma senhora, muito prestável e elegante. No momento de pagar, disse-lhe, no meu inglês cavo e fanhoso, porém muito preocupada com a sintaxe: your country is very beautiful! A senhora tirou os óculos e, devagarinho, olhos nos olhos, perguntou-me de onde eu era. Ao divulgar-lhe a minha origem, desata-me a falar de Ponte de Lima, Braga, Porto, Lagos.... Fiquei a saber que adora Portugal e vem para cá de férias frequentemente. Creio que, se eu dominasse fluentemente o inglês (quem é que me mandou estudar línguas mortas?), tivesse tido mais tempo, nos sentaríamos a beber uma Guiness, um Bushmills, ou, quem sabe, um Jameson, e ela me teria contado a vida toda. E eu a minha, claro!

 

Mas aquele castelo medieval, abandonado e em ruínas, situado no topo de uma falésia com vista para o mar, que sempre povoou o meu imaginário, desde que serviu de palco para algumas cenas da famosa série “A Guerra dos Tronos”, estava à minha espera!  Cercado por encostas íngremes e com acessibilidade apenas pelo cruzamento de uma ponte, mostrava, sem dúvida, o seu ideal defensivo. 

A sua primeira construção, segundo dados oficiais, remonta ao Séc XIV e é atribuída à família MacQuillan. Todavia, em poucas décadas, um guerreiro, MacDonnell, resolveu apoderar-se dele, tendo ido habitá-lo com a sua família.

Reza uma das lendas que a senhora MacDonnell implorara ao marido, extremamente teimoso, para mudar de habitação pois já se sentia cansada daquele isolamento e da humidade que lhe fazia ranger as artroses. Como o marido tinha tomado a pulso aquele castelo, não queria sair de lá e, portanto, não  cedia, de modo nenhum, às súplicas da pobre esposa. Tanto mais que ela já não tinha a jovialidade de outrora e estava muito resingona.   Então, mediante a casmurrice do marido, teve uma ideia à medida da sua teimosia: pediu aos seus empregados que, na ausência dele, lhe demolissem a cozinha e atirassem os destroços pelo grande penhasco. Assim, teria um pretexto para o convencer  a mudar de habitação e acabar os seus dias num palacete longe do mar.

 

A história, contudo, é outra. Na década de 1630, durante uma enorme tempestade, a cozinha, um dos complexos do castelo, caiu pelo penhasco, devido à força da intempérie.

 

Duas enormes forças naturais venceram a teimosia de um guerreiro: Mulher e Natureza.

É claro que eu acredito nas duas Forças, mas inclino-me a preferir a força da Mulher que já não aguentava o uivar dos ventos, nem o gemer das artroses. Queria era sossego, uma mantinha nos joelhos, uns suavíssimos bushmills, para dormitar junto à lareira, depois de ler devagarinho um livro e sonhar com o doce olhar da sua mocidade, quando, nos salões do castelo, dançava com o seu cavaleiro/guerreiro ao som de violinos, alaúdes, flautas, gaitas de foles e harpas.

Actualmente, o castelo ainda pertence à família McDonnell, porém quem o administra é o Estado.

É, sem dúvida um grande ponto de interesse. Eu gostei muito e recomendo uma visita.



Ana Maria Dias da Cunha

 

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

 A LENDA DA CALÇADA DOS GIGANTES


Quando o desconhecido começa a namorar-me, a cativar-me e, acto contínuo, me convida à consumação, a minha racionalidade aguça-se, fica em estado de alerta e entro numa espiral programática de cálculos e escolhas múltiplas que, cuidadosamente, começo a peneirar e a selecionar, de acordo com a hierarquia da sua importância para mim. Sou assim, porque a minha natureza, agora com requintes de “saberes de experiências feitos”, me obriga, por questões de autoprotecção, a ser mais prudente e sensata! É importante traçar um projecto, nem que seja apenas “um risco no ar”!

Andar à deriva, por mais que, para mim, continue a ser aliciante, e o meu espírito aventureiro continue a enternecer-se e a arrepiar-se de alegria e emoção, não combina já com a minha idade, nem com o “modus operandi” do meu companheiro de todas as jornadas, há já 40 e tal anos, cuja capacidade organizativa é inexcedível e digna de uma enorme admiração. Fica transfigurado, literalmente, sempre que as “coisas” lhe fogem do seu controle. Sempre “com as malas preparadas para “a Viagem” (como ele diz), sempre consciente dos imponderáveis que a vida faz o favor de nos “presentear”, para nos relembrar de quem é que COMANDA, coloca sempre esses factores nas equações, antes de rumarmos a qualquer viagem.
 
Temos aprendido muito um com o outro, apesar de ele achar que eu pareço “andar sempre com a cabeça na lua”. Pareço, mas não ando, esse é um facto! Tenho os meus ritmos e sou muito zelosa no que ao acarinhá-los e obedecer-lhes diz respeito.
 
Este ano, curiosamente, a nossa viagem não envolveu nenhum destes cálculos, quer no que diz respeito ao tempo e destino. Houve, sim, os sempre factores do domínio do imponderável que nos ultrapassam sempre! Nessa bendita escolha, equacionámos essencialmente: a fuga aos incêndios e ao calor excessivo. Fui eu quem decidiu o destino, depois de estacar numa imagem, ao pesquisar a ilha esmeralda, a Irlanda. A decisão foi tomada 4 a 5 dias, antes do embarque! A foto que despoletou esta eleição foi uma formação curiosa de 40 mil colunas de basalto de até 12 metros de altura, com formas hexagonais tão perfeitas que parecem moldadas por mãos gigantes. (já tinha visto “pequenas amostras” destas formações, quer na ilha de Porto Santo, quer na ilha das Flores, quer algures para os lados de Rogil/ Tapada de Mafra / arredores).
 
Ao que se sabe, esta imponente estrutura geológica surgiu após a erupção de um vulcão, há 60 milhões de anos. Foi descoberta em 1693 e declarada Património da Humanidade em 1986.
 
Por detrás desta engenhosa criação da Natureza, com o nome “Calçada dos Gigantes”, existe uma interessante lenda que faz jus ao seu nome. Essas formações rochosas, chamadas de Giant’s Causeway em inglês, surgiram porque um gigante irlandês, chamado Finn MacCool, desafiou um gigante escocês, chamado Benandonner, porém não havia nenhuma embarcação grande o suficiente para que ele pudesse chegar até ao outro lado do mar e confrontar o seu inimigo.
 
O gigante MacCool, então, resolveu o problema construindo uma calçada com enormes colunas de pedra que ligava os dois países. Brenandonner aceitou o desafio e atravessou o mar para chegar até à Irlanda, utilizando esta calçada.
 
Quando a esposa de Finn percebeu que o outro gigante era muito mais forte que o marido, resolveu vesti-lo como um bebé para salvar seu amado da situação. Brenandonner chegou à casa dos dois, e vendo o tamanho do bebé, pensou: “se o bebé é deste tamanho, o pai deve ser enorme!”, e fugiu de volta à Escócia.
 
Na fuga, Brenandonner deixou para trás uma bota, onde me sentei a imaginar a estória.
 
Desci da bota, tão possuída de encanto e maravilhamento que me distraí, escorreguei numa pedra molhada e dei um pequeno tombo! Nada grave por sinal! Apenas um hematoma que ainda persiste, e que faço questão de manter, não colocando o milagreiro trombocid! Este pequeno incidente entra na equação dos imponderáveis que, se eu tivesse escutado a voz da razão do meu companheiro, nunca teria acontecido, pois teria metido na mala as botas “todo terreno”, que me costumam acompanhar para todo o lado!
 
Depois deste pequeno percalço, e de ver que eu estava operacional, ainda ouvi uma reprimenda bem dada, sem dar hipóteses para ripostar: “Pensavas que ias ver o Louvre?!”.

Sorri apenas de felicidade, por três razões: por estar num santuário, por ter saído ilesa da pequena queda, mas acima de tudo porque estava de férias e andava em perfeito estado de ataraxia!

Ah! Não posso deixar de tecer um elogio à sageza da esposa de Ninn, bem como ao amor que ela sentia pelo marido. Creio até que esta lenda deve reflectir  todo um inconsciente colectivo da mulher irlandesa!

Bem, mas isso já são conjecturas minhas! Eu quero acreditar nesta sagaz apologia do amor! 
 
Sou crente!



Eu "enfiada" na bota...
A bota do Gigante escocês, Brenandonner,  que ficou para trás.    
 
Pequeno pormenor da Calçada dos Gigantes.


 
Ana Maria Dias da Cunha

segunda-feira, 17 de abril de 2023

 

 

A lenda da Inês Negra

 

 

Eu confesso que ignorava! 

 

E não tenho desculpas, pois devia ter lido, com muito mais atenção, o nosso cronista Fernão Lopes e as suas crónicas, sobretudo um episódio da Crónica de D. João I, onde é narrada uma luta entre duas mulheres, “escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da vila e outra da arraia, e andaram ambas aos cabelos e venceu a do arraial”.

Tudo se passou na "mui nobre" Vila de Melgaço!

Quem nunca ouviu falar, sobretudo nas benditas aulas de História, da crise de sucessão de 1383-1385?

Ao que à história diz respeito, ainda em princípios de 1387, algumas terras e praças-fortes do Reino de Portugal mantinham-se fiéis a D. Beatriz de Portugal, esposa do rei D. João I de Castela e única filha legítima de D. Fernando I de Portugal e de sua mulher, a rainha D. Leonor de Teles.

Ora a fidelidade a D. Beatriz, esposa do rei de Castela, ameaçava a independência portuguesa que ficaria sob o comando do Reino de Castela.

A Vila de Melgaço e o seu Castelo, que tinham tomado a mesma posição, sofreram sucessivos ataques pelas forças militares que estavam sob o comando do então pretendente ao trono, João I de Portugal (1383-1433), conhecido como Mestre de Avis.

Esta luta durou 53 dias e "caracterizou-se por um apertado cerco, seguindo-se uma série de assaltos e escaramuças, onde se defrontaram a nobreza, apoiante dos castelhanos, encastelada na cerca da vila, dominada pelo castelo e a sua torre de menagem, e as classes populares, além do muro, no chamado “arraial” militar, partidários de D. João de Avis.

Após vários ataques com várias perdas humanas em ambos os exércitos e escassez de água dentro das muralhas, D. João I mandou o prior falar com o alcaide rival, exigindo a devolução da dita Vila sem que mais sangue fosse derramado.

Conforme tinha sido acordado, os ocupantes teriam um dia para abandonar o castelo, levando apenas a roupa que traziam no corpo.

A alcaidaria foi entregue, então, a João Rodrigues de Sá, e o rei D. João I partiu para Monção, vila vizinha, onde se encontrava a sua esposa, D. Filipa de Lencastre, num famoso mosteiro beneditino, a rezar a favor da independência.

Onde aparece, então, a lenda?

Admito! Acho-a deveras interessante e reveladora, uma vez mais, da valentia e coragem das mulheres, no que à tomada de decisões diz respeito!

Conta-se que esta famosa Inês Negra, mulher do povo, fiel à causa portuguesa, se juntou às hostes de El Rei D. João I, embora os dois exércitos nunca tenham chegado a defrontar-se.

Parece que, na época, era comum substituir a batalha, que traria grande perda de vidas, por um torneio/duelo.

Segundo reza esta lenda, foi assim que aconteceu em Melgaço.

Este confronto foi, então, entre Inês Negra e a sua rival, a “Arrenegada”, que apoiava os castelhanos.

Ambos os exércitos concordaram com esta luta de "hercúleas mulheres", cujo duelo começou à espada!

A dado momento da luta, os portugueses temeram por Inês Negra, quando a "Arrenegada”, com um golpe de fúria, fez saltar a espada das mãos de Inês.

Sem arma, Inês apoderou-se da forquilha de um camponês e retomou a luta. Entretanto, a sua opositora também largou a espada e pegou num varapau que quebrou nas costas de Inês. Cega pela dor, esta lança-se em luta corporal com a "Arrenegada”. Rolaram pelo chão, atiraram-se aos cabelos uma da outra, eu sei lá! Foi um pandemónio!

Entretanto, ouviu-se um grito de dor…

a "Arrenegada” levantou-se e fugiu a correr para a torre de menagem do castelo de Melgaço, tapando as nódoas e o sangue do rosto com as mãos, dando-se por vencida.

E, assim, os castelhanos, nos termos do acordo, saíram da Vila no dia seguinte, dando entrada a D. João I e seus homens. El Rei quis recompensar Inês Negra. A “nossa” heroína, porém, respondeu que não precisava de nenhum prémio, pois sentia-se plenamente recompensada com a valente sova dada à sua velha inimiga.

Mulheres bravas, ou bravas mulheres?

Eu, confesso, sou incapaz de entrar em duelos, sejam eles quais forem, mas que gostei de “ver” este, lá isso gostei!

  Esta vila fronteiriça tinha de ser nossa!


 

Ana Maria Dias da Cunha

Fontes:

 informação retirada de "Um abordagem pictórica” desta lenda, de Júlia Fernandes, na torre de menagem, no Castelo de Melgaço.