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domingo, 27 de agosto de 2023

 

Mistérios e fascínios do Castelo de Dunluce,

Irlanda do Norte


Mergulhei um pouco mais fundo naquilo que despertou o meu interesse pela ilha esmeralda.

Agora, a esta distância, acredito que tenha sido uma série irlandesa, “Amores que Matam”, cujas paisagens naturais me fascinaram. Não obstante as personagens se moverem num espaço social de classe média/alta, cujas formas de pensar, sentir e agir representavam, portanto, uma pequena franja social, fiquei com curiosidade em tomar contacto, pequeno que fosse, com um povo, outrora colonizado e muito subjugado pelos ingleses.

 

É, claro, que não tive tempo suficiente para tirar ilações, porém, sempre que necessitámos de um esclarecimento, de uma pequena informação, senti muita afabilidade e uma prontidão, espontânea e simpática, em ajudar-nos. Lembro-me, em Galway, considerada uma das cidades mais joviais da Irlanda, numa loja, onde vi uns lenços artesanais encantadores, ser atendida por uma senhora, muito prestável e elegante. No momento de pagar, disse-lhe, no meu inglês cavo e fanhoso, porém muito preocupada com a sintaxe: your country is very beautiful! A senhora tirou os óculos e, devagarinho, olhos nos olhos, perguntou-me de onde eu era. Ao divulgar-lhe a minha origem, desata-me a falar de Ponte de Lima, Braga, Porto, Lagos.... Fiquei a saber que adora Portugal e vem para cá de férias frequentemente. Creio que, se eu dominasse fluentemente o inglês (quem é que me mandou estudar línguas mortas?), tivesse tido mais tempo, nos sentaríamos a beber uma Guiness, um Bushmills, ou, quem sabe, um Jameson, e ela me teria contado a vida toda. E eu a minha, claro!

 

Mas aquele castelo medieval, abandonado e em ruínas, situado no topo de uma falésia com vista para o mar, que sempre povoou o meu imaginário, desde que serviu de palco para algumas cenas da famosa série “A Guerra dos Tronos”, estava à minha espera!  Cercado por encostas íngremes e com acessibilidade apenas pelo cruzamento de uma ponte, mostrava, sem dúvida, o seu ideal defensivo. 

A sua primeira construção, segundo dados oficiais, remonta ao Séc XIV e é atribuída à família MacQuillan. Todavia, em poucas décadas, um guerreiro, MacDonnell, resolveu apoderar-se dele, tendo ido habitá-lo com a sua família.

Reza uma das lendas que a senhora MacDonnell implorara ao marido, extremamente teimoso, para mudar de habitação pois já se sentia cansada daquele isolamento e da humidade que lhe fazia ranger as artroses. Como o marido tinha tomado a pulso aquele castelo, não queria sair de lá e, portanto, não  cedia, de modo nenhum, às súplicas da pobre esposa. Tanto mais que ela já não tinha a jovialidade de outrora e estava muito resingona.   Então, mediante a casmurrice do marido, teve uma ideia à medida da sua teimosia: pediu aos seus empregados que, na ausência dele, lhe demolissem a cozinha e atirassem os destroços pelo grande penhasco. Assim, teria um pretexto para o convencer  a mudar de habitação e acabar os seus dias num palacete longe do mar.

 

A história, contudo, é outra. Na década de 1630, durante uma enorme tempestade, a cozinha, um dos complexos do castelo, caiu pelo penhasco, devido à força da intempérie.

 

Duas enormes forças naturais venceram a teimosia de um guerreiro: Mulher e Natureza.

É claro que eu acredito nas duas Forças, mas inclino-me a preferir a força da Mulher que já não aguentava o uivar dos ventos, nem o gemer das artroses. Queria era sossego, uma mantinha nos joelhos, uns suavíssimos bushmills, para dormitar junto à lareira, depois de ler devagarinho um livro e sonhar com o doce olhar da sua mocidade, quando, nos salões do castelo, dançava com o seu cavaleiro/guerreiro ao som de violinos, alaúdes, flautas, gaitas de foles e harpas.

Actualmente, o castelo ainda pertence à família McDonnell, porém quem o administra é o Estado.

É, sem dúvida um grande ponto de interesse. Eu gostei muito e recomendo uma visita.



Ana Maria Dias da Cunha

 

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