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sexta-feira, 25 de agosto de 2023

 A LENDA DA CALÇADA DOS GIGANTES


Quando o desconhecido começa a namorar-me, a cativar-me e, acto contínuo, me convida à consumação, a minha racionalidade aguça-se, fica em estado de alerta e entro numa espiral programática de cálculos e escolhas múltiplas que, cuidadosamente, começo a peneirar e a selecionar, de acordo com a hierarquia da sua importância para mim. Sou assim, porque a minha natureza, agora com requintes de “saberes de experiências feitos”, me obriga, por questões de autoprotecção, a ser mais prudente e sensata! É importante traçar um projecto, nem que seja apenas “um risco no ar”!

Andar à deriva, por mais que, para mim, continue a ser aliciante, e o meu espírito aventureiro continue a enternecer-se e a arrepiar-se de alegria e emoção, não combina já com a minha idade, nem com o “modus operandi” do meu companheiro de todas as jornadas, há já 40 e tal anos, cuja capacidade organizativa é inexcedível e digna de uma enorme admiração. Fica transfigurado, literalmente, sempre que as “coisas” lhe fogem do seu controle. Sempre “com as malas preparadas para “a Viagem” (como ele diz), sempre consciente dos imponderáveis que a vida faz o favor de nos “presentear”, para nos relembrar de quem é que COMANDA, coloca sempre esses factores nas equações, antes de rumarmos a qualquer viagem.
 
Temos aprendido muito um com o outro, apesar de ele achar que eu pareço “andar sempre com a cabeça na lua”. Pareço, mas não ando, esse é um facto! Tenho os meus ritmos e sou muito zelosa no que ao acarinhá-los e obedecer-lhes diz respeito.
 
Este ano, curiosamente, a nossa viagem não envolveu nenhum destes cálculos, quer no que diz respeito ao tempo e destino. Houve, sim, os sempre factores do domínio do imponderável que nos ultrapassam sempre! Nessa bendita escolha, equacionámos essencialmente: a fuga aos incêndios e ao calor excessivo. Fui eu quem decidiu o destino, depois de estacar numa imagem, ao pesquisar a ilha esmeralda, a Irlanda. A decisão foi tomada 4 a 5 dias, antes do embarque! A foto que despoletou esta eleição foi uma formação curiosa de 40 mil colunas de basalto de até 12 metros de altura, com formas hexagonais tão perfeitas que parecem moldadas por mãos gigantes. (já tinha visto “pequenas amostras” destas formações, quer na ilha de Porto Santo, quer na ilha das Flores, quer algures para os lados de Rogil/ Tapada de Mafra / arredores).
 
Ao que se sabe, esta imponente estrutura geológica surgiu após a erupção de um vulcão, há 60 milhões de anos. Foi descoberta em 1693 e declarada Património da Humanidade em 1986.
 
Por detrás desta engenhosa criação da Natureza, com o nome “Calçada dos Gigantes”, existe uma interessante lenda que faz jus ao seu nome. Essas formações rochosas, chamadas de Giant’s Causeway em inglês, surgiram porque um gigante irlandês, chamado Finn MacCool, desafiou um gigante escocês, chamado Benandonner, porém não havia nenhuma embarcação grande o suficiente para que ele pudesse chegar até ao outro lado do mar e confrontar o seu inimigo.
 
O gigante MacCool, então, resolveu o problema construindo uma calçada com enormes colunas de pedra que ligava os dois países. Brenandonner aceitou o desafio e atravessou o mar para chegar até à Irlanda, utilizando esta calçada.
 
Quando a esposa de Finn percebeu que o outro gigante era muito mais forte que o marido, resolveu vesti-lo como um bebé para salvar seu amado da situação. Brenandonner chegou à casa dos dois, e vendo o tamanho do bebé, pensou: “se o bebé é deste tamanho, o pai deve ser enorme!”, e fugiu de volta à Escócia.
 
Na fuga, Brenandonner deixou para trás uma bota, onde me sentei a imaginar a estória.
 
Desci da bota, tão possuída de encanto e maravilhamento que me distraí, escorreguei numa pedra molhada e dei um pequeno tombo! Nada grave por sinal! Apenas um hematoma que ainda persiste, e que faço questão de manter, não colocando o milagreiro trombocid! Este pequeno incidente entra na equação dos imponderáveis que, se eu tivesse escutado a voz da razão do meu companheiro, nunca teria acontecido, pois teria metido na mala as botas “todo terreno”, que me costumam acompanhar para todo o lado!
 
Depois deste pequeno percalço, e de ver que eu estava operacional, ainda ouvi uma reprimenda bem dada, sem dar hipóteses para ripostar: “Pensavas que ias ver o Louvre?!”.

Sorri apenas de felicidade, por três razões: por estar num santuário, por ter saído ilesa da pequena queda, mas acima de tudo porque estava de férias e andava em perfeito estado de ataraxia!

Ah! Não posso deixar de tecer um elogio à sageza da esposa de Ninn, bem como ao amor que ela sentia pelo marido. Creio até que esta lenda deve reflectir  todo um inconsciente colectivo da mulher irlandesa!

Bem, mas isso já são conjecturas minhas! Eu quero acreditar nesta sagaz apologia do amor! 
 
Sou crente!



Eu "enfiada" na bota...
A bota do Gigante escocês, Brenandonner,  que ficou para trás.    
 
Pequeno pormenor da Calçada dos Gigantes.


 
Ana Maria Dias da Cunha

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