A lenda da Inês Negra
Eu confesso que ignorava!
E não tenho desculpas, pois devia ter lido, com muito mais atenção, o nosso cronista Fernão Lopes e as suas crónicas, sobretudo um episódio da Crónica de D. João I, onde é narrada uma luta entre duas mulheres, “escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da vila e outra da arraia, e andaram ambas aos cabelos e venceu a do arraial”.
Tudo se passou na "mui nobre" Vila de Melgaço!
Quem nunca ouviu falar, sobretudo nas benditas aulas de História, da crise de sucessão de 1383-1385?
Ao que à história diz respeito, ainda em princípios de 1387, algumas terras e praças-fortes do Reino de Portugal mantinham-se fiéis a D. Beatriz de Portugal, esposa do rei D. João I de Castela e única filha legítima de D. Fernando I de Portugal e de sua mulher, a rainha D. Leonor de Teles.
Ora a fidelidade a D. Beatriz, esposa do rei de Castela, ameaçava a independência portuguesa que ficaria sob o comando do Reino de Castela.
A Vila de Melgaço e o seu Castelo, que tinham tomado a mesma posição, sofreram sucessivos ataques pelas forças militares que estavam sob o comando do então pretendente ao trono, João I de Portugal (1383-1433), conhecido como Mestre de Avis.
Esta luta durou 53 dias e "caracterizou-se por um apertado cerco, seguindo-se uma série de assaltos e escaramuças, onde se defrontaram a nobreza, apoiante dos castelhanos, encastelada na cerca da vila, dominada pelo castelo e a sua torre de menagem, e as classes populares, além do muro, no chamado “arraial” militar, partidários de D. João de Avis.
Após vários ataques com várias perdas humanas em ambos os exércitos e escassez de água dentro das muralhas, D. João I mandou o prior falar com o alcaide rival, exigindo a devolução da dita Vila sem que mais sangue fosse derramado.
Conforme tinha sido acordado, os ocupantes teriam um dia para abandonar o castelo, levando apenas a roupa que traziam no corpo.
A alcaidaria foi entregue, então, a João Rodrigues de Sá, e o rei D. João I partiu para Monção, vila vizinha, onde se encontrava a sua esposa, D. Filipa de Lencastre, num famoso mosteiro beneditino, a rezar a favor da independência.
Onde aparece, então, a lenda?
Admito! Acho-a deveras interessante e reveladora, uma vez mais, da valentia e coragem das mulheres, no que à tomada de decisões diz respeito!
Conta-se que esta famosa Inês Negra, mulher do povo, fiel à causa portuguesa, se juntou às hostes de El Rei D. João I, embora os dois exércitos nunca tenham chegado a defrontar-se.
Parece que, na época, era comum substituir a batalha, que traria grande perda de vidas, por um torneio/duelo.
Segundo reza esta lenda, foi assim que aconteceu em Melgaço.
Este confronto foi, então, entre Inês Negra e a sua rival, a “Arrenegada”, que apoiava os castelhanos.
Ambos os exércitos concordaram com esta luta de "hercúleas mulheres", cujo duelo começou à espada!
A dado momento da luta, os portugueses temeram por Inês Negra, quando a "Arrenegada”, com um golpe de fúria, fez saltar a espada das mãos de Inês.
Sem arma, Inês apoderou-se da forquilha de um camponês e retomou a luta. Entretanto, a sua opositora também largou a espada e pegou num varapau que quebrou nas costas de Inês. Cega pela dor, esta lança-se em luta corporal com a "Arrenegada”. Rolaram pelo chão, atiraram-se aos cabelos uma da outra, eu sei lá! Foi um pandemónio!
Entretanto, ouviu-se um grito de dor…
a "Arrenegada” levantou-se e fugiu a correr para a torre de menagem do castelo de Melgaço, tapando as nódoas e o sangue do rosto com as mãos, dando-se por vencida.
E, assim, os castelhanos, nos termos do acordo, saíram da Vila no dia seguinte, dando entrada a D. João I e seus homens. El Rei quis recompensar Inês Negra. A “nossa” heroína, porém, respondeu que não precisava de nenhum prémio, pois sentia-se plenamente recompensada com a valente sova dada à sua velha inimiga.
Mulheres bravas, ou bravas mulheres?
Eu, confesso, sou incapaz de entrar em duelos, sejam eles quais forem, mas que gostei de “ver” este, lá isso gostei!
Esta vila fronteiriça tinha de ser nossa!
Ana Maria Dias da Cunha
Fontes:
informação retirada de "Um abordagem pictórica” desta lenda, de Júlia Fernandes, na torre de menagem, no Castelo de Melgaço.



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