Em busca das pesqueiras do rio Minho
Os arvoredos, por onde espreitavam os raios de sol, entreabriam-se para o rio. Num rodopio incessante, o chilreio dos pássaros harmonizava-se com silêncio. Era uma manhã feliz, que acordara orvalhada de luz, contrariando as previsões.
Começámos a caminhar ritmados pela musicalidade que vozeava no ar.
Com nossa serena quietude, buscávamos pequenos monumentos milenares, as pesqueiras, cujas primeiras referências documentadas datam do século XI.
Nove séculos nos separavam.
Certamente, segredar-nos-iam mistérios, aventuras, tragédias, muitas tristezas, mas também muitas alegrias.
Tínhamos ouvido dizer que estas estruturas de pedra, relativamente altas, colocadas em ambas as margens (portuguesa e espanhola) deste caudaloso Minho, tinham sido construídas pelos povos castrejos, que habitavam as suas margens e que já trabalhavam a pedra e o ferro. Entre elas, existia um conjunto de pedras colocadas estrategicamente, a meio do rio, para obstaculizar a subida do peixe, como a lampreia, o sável, a truta e o salmão. À zona mais alta destes pequenos “monumentos”, o piau, subiam, e continuam a subir, os pescadores para puxar as redes, que eram, e continuam a ser, colocadas, precisamente, nas únicas zonas que permitem a subida desses peixes, iguarias cada vez mais raras, cujo destino os obrigam a desviar-se e a entrar num canal central, que dá lugar a uma outra zona da qual já não conseguem sair, enredando-se nas redes.
Há testemunhos históricos, que remontam aos romanos, amantes da boa comida e boa bebida que, sabendo da riqueza do rio Minho, tinham enviado engenheiros para o campo, a fim de construírem barcos apropriados para a sua navegação e procederem ao aperfeiçoamento desta arte de pescar.
Cautelosamente, e para compreendermos os saberes ancestrais que estiveram por detrás destas construções, abeirámo-nos delas e testemunhámos a escolha dos melhores sítios onde foram implementadas, a sua orientação em relação às correntes do rio, o trabalhar da pedra, o erguer dos muros, bem como a opção desta arte piscatória.
Sensibilizou-nos, acima de tudo, o sistema da partilha comunitária do seu uso, que vem de muito longe e, ao que parece, ainda se pratica. Esperemos que, acima de tudo, que esta prática continue e se perpetue.
Como eu sou crente por Natureza, a minha vontade cumprir-se-á, pois quero acreditar que aquele sítio paradisíaco, onde se consegue deveras escutar o silêncio, seja conduzido por alcaides e presidentes camarários que tenham cultura e conhecimento suficientes para não destruírem este grande património cultural.
Ana Maria Dias da Cunha
Fontes de pesquisa-Câmara Municipal de Melgaço



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