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No coração de Dublin, existe uma universidade, Trinity College, que tem 431 anos. É a mais antiga da Irlanda e uma das mais famosas do mundo. Foi a Rainha Elisabeth I que esteve por detrás da sua fundação, em 1592.
Durante 368 anos, foi elitista, pois era um lugar exclusivo de protestantes (maioritariamente ingleses). Porém, em 1960, passou a admitir alunos católicos que, na sua maioria, eram e são irlandeses.
Oscar Wild, Edmund Burke e Samuel Becktt, ilustres personalidades, foram jovens que, entre o estudo e deambulações diversas, passaram por aqui.
A Biblioteca desta universidade dá guarida à maior colecção de manuscritos e livros impressos da Irlanda. Desde 1801, recebe um exemplar de todas as obras publicadas na Irlanda e Grã-Bretanha e, por isso, já conta com quase três milhões de livros divididos em oito edifícios. O edifício da Antiga Biblioteca, construído entre 1712 e 1732, é o mais antigo dos que se conservam. A sala principal, conhecida por “Long Room”, tem 65 metros de comprimento e possui mais de 200.000 dos livros mais antigos da biblioteca.
As infinitas estantes que, no dia da minha visita, não estavam repletas de livros, devido à manutenção esporádica de limpeza, libertam um odor muito agradável a madeira antiga, cujo ambiente nos transporta para outras eras, outros cenários.
Dezenas de bustos de mármore vigiam atentamente todo este espaço mítico, misterioso e envolvente. Detive-me no busto de Platão, discípulo de Sócrates, um dos meus filósofos preferidos da antiguidade grega. Veio-me à memória um pensamento (não sei precisar o autor) que li a propósito de uma síntese da “Alegoria da Caverna” e, baixinho, perguntei-lhe: Meritíssimo Platão, por favor, diga-me: É verdade que o mito da caverna é um ser humano que é uma presa social? Uma presa psíquica? Uma presa psicológica? Uma presa moral? Uma presa da natureza humana capitalista? É verdade que só a liberdade social, psíquica, psicológica, moralista e capitalista desamarra o ser humano da caverna e o liberta de seus próprios arquétipos? Ele, num brutal silêncio de morte, respondeu-me, sorrindo - Quanto a ti, está absolutamente descansada, pois não encaixas em nenhum padrão, seja ele de que natureza for! Tu és absolutamente imprevisível, indomável, indisciplinada e deixas a vida acontecer! No entanto, quando os imponderáveis esbarram contigo, nesse momento, o teu semblante é tão, mas tão aflitivo, que pareces "o grito de Munch"! Vigio-te e sei que, lentamente, desapertas os grilhões que, no momento, te prendem e retomas o trilho "da vida a acontecer"! Quanto aos outros mortais, deixa-os pensar, reflectir, para concluírem se é necessário, ou não, se libertarem dos grilhões que os escravizam. Sorri e despedi-me humildemente, agradecendo o seu sábio conselho.
Percorri
mais uns passos, dos 65m de comprimento, do “Long Room” e, mais ou menos a meio
da sala, deparei-me com uma vitrine, onde está exposta a mais antiga harpa da
Irlanda, feita de carvalho e salgueiro com cordas de bronze. A harpa, como
sabem, é reconhecida como um símbolo da Irlanda, desde o Séc. XIII. Reza a
lenda e a história que esta que se encontra neste espaço, envolvida pela
vitrine, pertenceu a Brian Boru que, em gaélico, significa o dos
tributos, pois tributou outros governantes menores da Irlanda para
reconstruir os mosteiros e as bibliotecas destruídas pelas invasões Vikings.
Tornou-se rei de Munster em 976 e, em 1002, ganhou o título de Grande Rei de
toda a Irlanda (em inglês High King of All Ireland e em irlandês Árd
Righ Gaidel Éirinn).
Morreu numa Sexta-feira Santa, em 23 de Abril de 1014, durante a batalha de
Clontarf, lutando contra os Vikings.
A partir da sua morte, reza a história que a Irlanda, sem o seu heróico líder,
caiu no caos e na anarquia dinástica, e nunca mais voltou a ficar unida sob o
domínio de um irlandês.
O livro de Kells, a jóia da biblioteca, contém um texto em latim dos quatro evangelhos, escritos com uma caligrafia muito embelezada, feita com pigmentos coloridos. Este precioso livro foi criado pelos monges da abadia de Iona, (ilha escocesa) no início do Séc. IX. Depois do saque de Iona, levado a cabo pelos Vikings, em 806 a.C., os monges que sobreviveram refugiaram-se em Kells, uma povoação do condado de Meath, na República da Irlanda, que fica a 65Km de Dublin, a capital irlandesa.
Nesta visita, escutei, muito atenta, todas as explicações e ia perdendo o meu olhar em tudo o que via, porém, aqui para nós que ninguém nos ouve, o que me deu mais prazer foi ter aquela conversinha com o sapiente Platão, e imaginar o Grande Rei de toda a Irlanda, Brian Boru, a lutar de harpa em riste contra os ferozes Vikings!
Ana Maria Dias da Cunha



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