“A tolerância é a melhor das religiões”.
(Victor Hugo)
(Conflito que nem os Muros da Paz resolveram)
Estando em Belfast, era imperioso visitar os “Muros da Paz”, outrora denominados “Muros da Vergonha”. Sim, da vergonha, pois, no Séc XXI, em países ditos civilizados, ainda verificamos grandes muros altos, com arame farpado, a separar seres humanos que não se toleram devido à prática de religiões diferentes.
Estando em Belfast, é impossível ignorar o conflito que ainda opõe católicos e protestantes. Este entra-nos pelo olhar de uma forma confrangedora. Sente-se algo desconfortável, nesta capital norte-irlandesa.
A ferida que se sente a qualquer momento pode voltar a sangrar! A sua cicatrização tem sido difícil pois, quer de um lado, quer de outro, se verificam organismos humanos extremamente renitentes aos mecanismos de reparação.
Este conflito na Irlanda do Norte, que é conhecido por “The Troubles”, deve-se, em grande parte, à intensificação da colonização britânica do Século XVII, e que, depois de muita tinta, suor, sangue, lágrimas e fome, ao longo de séculos, fazer correr, a avaliar pela vivacidade das cores e dos temas desenhados nos muros, se verifica que, embora dissimulados, estes problemas existem.
Custa-me imenso aceitar estes rancores, ainda mais quando se trata de religiões. Pergunto-me muitas vezes se não é suposto a religiosidade/espiritualidade, seja ela de que natureza for, unir as pessoas, torná-las mais dóceis e compreensivas, levando-as a construir pontes e não muros. Porém, por outro lado, fico muito renitente e aberta à compreensão! Pela minha natureza intolerante a injustiças e atitudes arbitrárias, muitas vezes resultantes de interesses pessoais, se tivesse sofrido na pele, directa ou indirectamente, os efeitos deste conflito, penso que não estaria com sobranceria e despudor a julgar estas fraquezas humanas.
Este pomo da discórdia vem de muito longe, remontando à guerra da Independência, ou guerra Anglo-Irlandesa, cujo conflito armado assimétrico, foi travado entre 1919 a 1921, entre o exército Republicano Irlandês (as forças da autoproclamada Républica da Irlanda) e o exército Britânico. Esta guerra resultou de um desenrolar de eventos após anos de grande tensão. Em Dezembro de 1918, houve eleições gerais na Irlanda, e o partido republicano Sinn Féin ganhou com a maioria dos votos. Em 21 de Janeiro de 2019, foi formado o primeiro governo de ruptura e é declarada a independência da Irlanda do Reino Unido. Todavia, esta interrupção acentuou significativamente os problemas.
Assim, durante boa parte de 1919, o IRA (Exército Republicano Irlandês, que lutou pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido) focou as suas actividades em roubar armas e libertar prisioneiros republicanos. Em Setembro, o governo inglês em Londres baniu e declarou ilegal o parlamento separatista (Dáil) e o Sinn Féin, intensificando o conflito. Estas lutas concentraram-se essencialmente na região sul, na área de Munster (particularmente no condado de Cork, tendo sido esta cidade totalmente destruída pelo exército britânico), em Dublin e em Belfast, no norte. Nestes locais, foram registados 75% das fatalidades da Guerra. Foi, porém, em Belfast, que a violência tomou carácter mais sectário e religioso, com católicos e protestantes a degladiarem-se em sangrentos confrontos.
Depois de dois anos de intensos conflitos, com bastante perdas humanas, cidades destruídas, terminando com a prisão de pelo menos 4500 republicanos irlandeses, foi acertado um cessar fogo, em 11 de Junho de 1921, e a Irlanda foi oficialmente dividida em duas, terminando na assinatura do Tratado Anglo-Irlandês, em 6 de Dezembro de 1921. Contudo, este tratado, ao que se sabe, não foi consensual.
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Na actualidade, persistem duas forças perfeitamente antagónicas. Por um lado os lealistas, maioritariamente protestantes, que defendem o aperfeiçoamento dos laços políticos com a vizinha ilha da Grã-Bretanha, igualmente protestante, e a consequente conservação da Irlanda do Norte no seio do Reino Unido. Por outro lado, os integracionistas, minoria católica, que defende a integração da República da Irlanda, predominantemente católica, com quem partilha o território da ilha. Estes reivindicam a igualdade religiosa, sobretudo a não discriminação da minoria católica no acesso a cargos públicos e empregos. Com os direitos diminuídos, face à maioria protestante, a minoria católica sente-se marginalizada, alimentando, compreensivelmente, um sentimento indesejável de revolta, pois as discriminações, sejam elas de que natureza for, são desumanas e próprias de sociedades subdesenvolvidas.
Quem não se lembra da escalada da extrema e recente violência, levada a cabo pelo IRA que, recorrendo a métodos terroristas, incluindo atententados bombistas e emboscadas com armas de fogo contra alvos protestantes e representantes do governo britânico, se envolveram em lutas, cuja acção de terror e medo durou desde os anos 1960 até finais da década de 1990, altura em que foi assinado o Acordo de Belfast (ou Acordo de Sexta Feira Santa), que estabeleceu as bases para um governo de poder partilhado entre católicos e protestantes? Penso que ainda está bem vivo na mente de todos nós, sem dúvida.
A intenção era boa, todavia, esse acordo protocolar que, se esperava, trouxesse perdão, união e solidariedade, não passou do papel. Ao que parece, os
corações das pessoas, quer de um lado, quer de outro, continuam demasiado feridos e, por isso, dificilmente transmutam o ódio em
compaixão, compreensão, amor.
Na verdade, os problemas nunca foram totalmente eliminados. Mantêm-se enraizados profundos sentimentos de ressentimentos com esporádicos episódios de violência que, segundo testemunhos, o fenómeno do Brexit veio acentuar.
Resumindo, com católicos e protestantes a defenderem soluções mutuamente exclusivas (ser parte do Reino Unido ou pertencer à República da Irlanda), torna-se difícil encontrar um denominador comum que permita resolver definitivamente o conflito.
Confesso, mais uma vez, que me é difícil entender estas desavenças religiosas que obrigam ao surgimento de muros! Sempre acreditei que a religião implica elevação, desprendimento e, acima de tudo, perdão e união! Foi, com um certo constrangimento, tentativa de compreensão, mas também uma ligeira revolta que, no “Muro da PAZ” (outrora Muro da Vergonha), deixei a minha marca, quando escrevi (toda a gente que por lá passa deixa a sua mensagem), “As religiões são a origem do Mal”! Escrevi esta mensagem com toda a convicção e tristeza, porque simplesmente me custa perceber tanta mágoa!
Se todos os homens amassem mais a Natureza e se respeitassem uns aos outros, não precisaríamos de Religiões para sobreviver, pois encontraríamos espiritualidade nas pequenas coisas envolventes: nos rios que cantam, nos pássaros que chilreiam, na chuva que rega e faz florir, no sol que brilha e nos seca as lágrimas, nos poentes idílicos que nos trazem a tranquilidade de noites aluaradas e cravejadas de estrelas!
Chego à conclusão de que os interesses são terríveis, a Ganância devora o ser humano, e a humanidade continua a caminhar a várias velocidades.
Se me perguntarem com qual dos lados eu simpatizei mais, acho que facilmente chegam a uma conclusão! Considerei os habitantes da República da Irlanda muito sóbrios, simples, quer no que diz respeito às paisagens, habitação, e muito prestáveis, afáveis e simpáticos na forma como tratam os visitantes.
Sei que posso estar a tirar conclusões precipitadas, porém, foi o que senti!
Ana Maria Dias da Cunha





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