«A dor é inevitável. O sofrimento é opcional»
Pensamento intrigante, que é atribuído a dois grandes vultos
da literatura: Carlos Drummond de Andrade e Haruki Murakami.
Não faço ideia quem é o real autor e
também não é isso que interessa para o caso.
O que me intriga
é a paradoxalidade do pensamento!
A meu ver, a inevitabilidade da dor e a
opcionalidade do sofrimento tornam-se
incompreensíveis, pois, na minha perspectiva, é difícil dissociar uma da
outra.
Quando
estudei, vagamente, em psicologia, as «questões» da homeostasia,
nomeadamente os que eram considerados «impulsos homeostáticos primários», a «fuga
à dor», numa ordenação hierarquizada, surgia
imediatamente a seguir, se a memória não me atraiçoa, à «necesssidade
de oxigénio», por isso, em segundo lugar.
Então, a
dor, «per si», não é já sinónimo de sofrimento?
O
sofrimento é opcional, porque está em nós o «saber» fugir ou saber esvaziar a
dor?
É aqui que
me vêm à memória, então, os epicuristas, que me levam a fazer a pergunta: o
percurso da nossa vida deve basear-se, para além da necessidade de oxigénio,
que é o cerne da vida, na visão epicurista de que o «prazer é o bem supremo» e,
por isso, a sua demanda deve ser permanente? Mas como é possível? Há dores tão
fortes que nos causam tanto sofrimento e, não obstante a vontade férrea de
superação, elas demoram o tempo que é necessário para se cumprirem e, às vezes,
parece-nos interminável. E não estou a falar somente das dores
físicas, não! Falo das dores da alma, que nos fazem sangrar por dentro, quando
não as conseguimos esvaziar! Provocam «hemorragias» internas, às vezes,
irreversíveis e, portanto, transformam-se em dores «crónicas». Somos humanos e,
quanto a mim, é impossível não se sofrer!
Nesse caso, também, a indignação, que
nos causa tanta dor e sofrimento, deveria ser opcional? Como? Se há tanta coisa
que nos indigna? Será que estes dois autores nos pretendem apontar o «caminho» da alienação?
Penso que,
de uma maneira geral, uma significativa parte da humanidade está a optar por
esse « caminho», esse « bem supremo», pois parece que nada os «afecta» e, a
bem da verdade, o Outro, quer esteja bem
ou mal, não lhe diz respeito, pois o egoísmo é um imperativo e a vidinha de
cada um já lhe dá «mais que fazer».
Sou humana
e, só por isso, sinto dores que me fazem sofrer e não consigo, de modo nenhum,
dissociá-las, sob pena de me estar a transformar num ser abjecto.
As alegrias
saboreiam-se melhor, quando a dor, que provoca sofrimento, não se esgota tão
facilmente, como seria do nosso agrado... Mas... a noite fria e escura dará
sempre lugar a um sol doirado... É preciso ter paciência (eu admiro o
estoicismo que nos ensina também a «aceitação», para sabermos controlar a
revolta) e saber viver também nos limites.
Era bom que
a «carruagem» da vida entrasse em velocidade cruzeiro, era bom, todavia, as «paragens»
são necessárias, pois precisamos de «arejar» a monotonia...
Ana Maria Dias da Cunha


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