Ontem, cantei e dancei para o Céu!
Cada vez estou mais pobre!
Pouco a pouco, vou ficando sem partes de mim!
A primeira e dolorosa amputação aconteceu há 40 anos! Fiquei sem o meu irmão mais velho! Tinha apenas 30 anos. A sua vida pulsava de vigor!
Fiquei derruída! Nem a falta do primeiro amor me doeu tanto como esta perda! Muito pelo contrário! Enterrei definitivamente aquela ilusão e abri uma caverna, grave e profunda, onde me escondi para embalar a minha incomensurável dor!
Aos pouquinhos, e com muito medo, fui espreitando para um subtil raio de luz que iluminava uma das paredes onde, por opção, me sentia aprisionada pelo sofrimento, que demorou o tempo preciso para eu aplacar a angústia!
Agarrei-me àquela ténue luzinha e atrevi-me a segui-la!
Já fora do buraco, meia estonteada pelo clarão de luz, alguém muito especial me viu perdida, desorientada e engraçou com a minha alma à deriva!
Com o seu sentido de humor, com a sua humanidade, com a sua ternura, devolveu-me a vontade de viver, renovando-me toda a esperança! Com muito medo da minha parte, apaixonámo-nos, amamo-nos e casamos.
Ainda estamos juntos! Mais resmungões, como compete a quem se ama e se conhece tão bem, mais dialogantes nos silêncios, mais respeitosos nos gostos pessoais, nos ideais, continuamos a percorrer o mesmo caminho, embora, muitas vezes, paralelamente! Ambos temos o nosso mundo, o nosso espaço, mas o que nos une é único e indizível!
Ambos temos sofrido perdas que nos vão deixando grandes buracos na alma. Amparamo-nos sempre como podemos e sabemos.
Hoje, na mudança de mais um ano, embora o mundo esteja a desmoronar-se (nunca pensei que, em pleno Séc. XXI, estivéssemos a passar por mais uma guerra desta dimensão), e os Homens de Boa Vontade estejam, cada vez mais, em minoria, juro que, à meia-noite em ponto, vou dançar a “Valsa da Meia Noite” com o meu irmão Zé, depois de termos aberto o baile com o “Tango dos Barbudos”. Vou dançar com a Zezinha, a minha mana mais nova que também está no céu, “Hey, Tonigt”, dos Creedence Clearwater Revival. Para os meus pais, que não tinham muito jeito para dançar, vou cantar-lhes a “Montanha” de Roberto Carlos. Sei que a minha voz vai embargar, pois era com esta música que a minha mãe, neste fim de ano triste, adormecia, e o seu rosto ficava calmo e sereno! E foi assim, com a mesma serenidade que, no dia 6 de Dezembro, a mesma data da partida do meu irmão, há 40 anos, dissemos adeus, com um sussurro banhado de lágrimas “Vai, mãe! Logo, logo vou ter contigo”!
Sim, voltei a entrar no buraco!
Sei que o raiozinho de luz vai voltar a surgir! Se há coisas que eu teimo em não perder é a Esperança! Porém, neste momento, apesar de ter dançado e cantado, ainda estou dorida, e o meu sofrimento pela perda recente da minha Linda mãe precisa de tempo para curar esta Dor!
A tristeza faz parte da vida, e eu vou embalá-la o tempo que ela precisar!
Ana Maria Dias da Cunha
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