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domingo, 30 de abril de 2017

Apesar de tudo, continuo a acreditar...

Estudando...


Nos tempos em que eu acreditava que o conhecimento e a cultura seriam prioridades políticas, num tempo em que eu acreditava que o «saber» era a maior arma para combater a ingnorância, que devolveria aos homens a dignidade perdida, eu participava em todos os congressos, seminários e simpósios que podia para «enriquecer», quer a nível pessoal, quer profissional ( não davam créditos, mas isso, para mim, era irrelevante!).

Nesses congressos/seminários/ simpósios, povoados de oradores de várias nacionalidades e com métodos específicos na arte da oratória, o prisma pelo qual eu filtrava o conhecimento era sempre o que me permitia usar o sentido crítico, baseado no descomprometimento e na isenção.

Havia de tudo! Oradores de entusiasmos e de palcos; oradores monocórdicos e «chatos»; oradores mercenários; oradores pseudo-intelectuais; oradores narcisistas, exercitando vaidades; oradores convictos, verdadeiros e entusiastas, com o dom natural da oratória.
Eram estes últimos que me prendiam à cadeira e faziam levitar a minha imaginação, aprofundando as raízes da minha crença!

Este poema/desabafo é fruto de um certo pudor, baseado num respeito, quase misericordioso, por um dos «oradores» que, devido ao seu "mercenarismo" e falta de verdade, me «desligou»!
Passou-se isto  nos dias 23 e 24 de abril de 1998.
Já lá vão uns anitos e eu já previa o rumo dos acontecimentos!

Nota: Apesar de tudo, continuo a acreditar que o conhecimento e cultura são armas poderosíssimas que combatem a ignorância reinante e concedem ao Homem a capacidade de se tornar mais humano e mais digno!
Aos políticos interessa-lhes a ignorância para transformarem os homens em «marionetes» e os manipularem a seu bel prazer, de acordo com os seus próprios interesses! Não sabem pensar HUMANDADE, infelizmente!
Não tenho imagens da época, porque, nesse tempo, nem telemóvel usava para poder « roubar» uma foto aqui e outra ali...


Aqui vai o poema/desabafo que, discretamente, fui rabiscando, enquanto, ao longe, se ouvia uma voz monocórdica e... chata!


Oradores de fim de Século


Chegam!
arvoram um ar
que escorre intelectualidade...

De cábula na mão
sem levantar os olhos,
sem fixar o público,
vomitam, uma vez mais,
o produto
do, talvez, único momento
de autenticidade!
( o da criação solitária- investigação).

O auditório, meio adormecido,
assiste, estoicamente,
a um exercício de vaidade
egocêntrica e autista.

Alguns
Indignam-se e...
saem...

Outros
adormecem...profundamente

Outros, ainda,
Tentam ver essa réstia
do que, outrora,
terá sido autêntico!

Mas... em vão!
O discurso
é um «xadrez de palavras»
um culto exacerbado
da forma,
do conceito,
demasiado engenhoso!

O importante, o importante
é distanciarem-se
tornarem-se inacessíveis
serem « endeusados»!

E,
no final,
os aduladores,
(que permaneceram no auditórios para serem vistos),
aplaudem freneticamente
sem terem percebido
NADA!


Ah,
Vieira1,
visionário,
como as tuas pedradas
nestes charcos estagnados
Seriam urgentes
AGORA!

  Ana Maria Dias da Cunha


1 alusão a Padre António Vieira, um dos autores da literatura barroca, que mais gosto me deu estudar e ensinar... Grande orador!





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