Gritos abafados em sonhos surreais
Com um ar austero e sisudo (fico
neste estado, sempre que os resultados não correspondem à minha
dedicação), preparo-me para entregar os testes de avaliação, quando um drone de
fabrico turco começa a sobrevoar o recinto escolar, ronda o pavilhão onde nos
encontramos e espia, com minúcia, a nossa sala de aula. Acto contínuo,
soam sirenes estridentes! Instala-se o pânico!
Aterrorizados, os alunos, à medida que me questionam - ó setora, ó setora,
estamos a ser invadidos? Os drones que Portugal comprou à Turquia não se
destinavam a ajudar a Ucrânia, setora? Quem é que, afinal, nos está a
atacar, setora? São os russos, ou os ucranianos? Então, nós não fazemos parte
da NATO? Não pertencemos ao mundo ocidental? De que lado estamos, afinal,
setora?...) - fogem da sala de aula a correr que nem loucos, atabalhoadamente, aos empurrões, atropelando-se
uns aos outros... Eu, aos berros, literalmente, tento recordar as regras de
evacuação... Em vão! Não adiantaram de nada os inúmeros simulacros! Num
último grito abafado, ainda lhes recomendo: Fujam para o metro, fujam para o
metro, abriguem-se no metro! Eu já lá vou ter convosco!
Transtornada, a tremer como varas verdes, tento arrumar todos os papéis na pasta. Por mais que insista, eles recusam-se a obedecer-me e, desconfiados, espreitam por todos os cantos.... Olham-me com olhos esbugalhados, assustados, gritam em silêncio e recusam o abrigo. De repente, na minha cabeça em constante redopio, faz-se luz! Arreganho-lhes os dentes, fecho as mãos em punho e esmurro-os, com tanta raiva que fico completamente prostrada (nunca sei onde vou buscar os meus super poderes!). Desacordados, consigo acadimá-los, como posso, na pasta (só não entendo esta estranha reprodução! Em casa, consegui colocá-los, ordenadamente, sem problemas, sem reclamações... pacificamente!)
É, agora, a minha vez de sair! Mas... sair para onde?
Não vejo ninguém! Estou sozinha! Abraço-me à pasta! Tenho medo de perder os testes. E depois? como é que os encarregados de educação ficam a saber do "empenho" dos seus educandos? O que acontece, se as evidências da avaliação se perderem? Tenho de fugir, tenho de me esconder... Tenho de ir para...para... ai, já me lembro... para o metro! Metro? Mas que metro? Eu estou em Braga! Aqui não há metro, quanto mais àquela profundidade como vi em Moscovo...
Meu Deus! Não sei dos meus alunos! Eles estavam na aula de português, a responsável por eles sou eu (esta preocupação ainda me vem do tempo de leccionação no 1ºciclo - que saudades da inocência dos pequeninos!). Pronto! Já sei! Lá vêm os encarregados de educação reclamar os seus direitos. Será que vou ter de os indemnizar a todos? Haverá, no meio deles, alguém que tenha compaixão e discernimento para perceber que esta invasão russa não é da minha responsabilidade!
Escondo-me num prédio já bombardeado, para despistar os mísseis! Agarro-me à pasta, o único elo que me prende à vida, no meio de tantos escombros! Sento-me no chão e choro, choro aos berros! Não quero acreditar no que me está a acontecer! Perdi os alunos, não há metro em Braga... estou só, tenho frio e medo. Subitamente, um míssil vem em minha direcção ... descobriu-me, o "filhodaputin", o "filhodaucrain", eu sei lá! Pronto! É o fim! Morri!
Morri?! Olha...afinal, não!
Acordo assarapantada, com o coração a galopar como um louco destrambelhado.
Mais um pesadelo!
Que estupidez! Nem a dormir consigo desligar! Estou exausta!
Estupidez? Sim! Talvez, sim!
Acho que a 3ª guerra mundial não
irá, certamente, começar neste canto mais a sul da Europa. Lembro-me
que foi isto que me ocorreu responder aos meus alunos, quando, no meio do
pânico e dúvidas, me questionavam! Também as questões eram de retórica! Eles já não querem saber nada...
Ainda agora, bem acordada, não consigo responder, porque tudo é imprevisível neste mundo de mentiras, indecisões, cobardias e culpados.
Ainda agora, bem acordada, só me ocorre dizer que, segundo o que li, os Estados Unidos e a União Europeia, na prática, já gastaram mais de 250 mil milhões de dólares com esta guerra, cuja diferença dos intervenientes não está nos interesses materiais antagónicos, mas nas diferentes concepções daquilo que é o Homem e a Vida!
Agora, bem acordada, só me apetece dizer que esta guerra é obscena e dotada de uma enorme arbitrariedade. Às vezes penso que esta guerra é entre os EUA e a Rússia, que usam a Ucrânia como intermediária, como um pretexto, não sei com que objectivos. Tudo isto, para mim, é tão estranho, tão complexo, tão enigmático...
Inicialmente, fiz uma leitura, "pela rama", desta guerra: Putin, oligarca-mor, com sede expansionista e espírito csarista, teimava reconquistar o império, a antiga União Soviética que, depois da Perestroika, ficou muito fragilizada.
Uma coisa é certa! Com o dinheiro já gasto nesta guerra, se houvesse homens de boa vontade, o mundo ficaria mais equilibrado, pois este contribuiria para combater a fome, permitiria mais investimento na educação, na saúde e na habitação.
Só, assim, se viveria em paz e harmonia, e o ser humano ficaria mais iluminado e engrandecido.
Ana Maria Dias da Cunha


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